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Hu Tong de Beijing
Minha avó tinha tido um pente, de cor marrom, plástico, que era desenhado como uma borboleta colorida, e faltavam alguns dentes. Minha avó colocava o pente na gavetinha direita da máquina de costura. Todo dia, de manhã as cinco, ainda estava escuro, ela se levantava. Ela nunca acendia a luz pois meu avô ainda estava dormindo. Apoiando na cabeceira da cama, ela se penteava. Tudo dia começava assim. Pedi ao meu tio para que me dasse o pente. Procurou, mas não achou. O pente sumiu também, como uma borboleta voando, passando pelo meu rosto, e sumiu. Não sei quando, não sei aonde. Assim chegou o dia, no qual eu comecei a sentir-se perdida.
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Nunca tenho coragem de contar para minha mãe, que quando eu penso na palavra "casa", aparece na minha mente a casinha da minha avó: o sol está brilhando pelas janelas, as plantas estão florindo deslumbrantes nos peitoris, eu estou brincando com meus brinquedores de conzinhar no sol, minha avó está preparando o almoço, uma cigarra está cantando, a tia vizinha está lavando roupas no pátio e conversando com sua mãe em voz baixa, de vez em quando passa um vendedor de sorvete ou de cerveja, o relógio da Torre do Relógio está batendo o meio-dia. É assim, assim é a minha casa. É a casinha. São as janelas grandes. É o sol quentinho. Não é que não ame minha mãe. Amo. Mas a quentura, a tranqüilidade e a trivialidade da Hu Tong foram embutidas na minha vida. Moro hoje num prédio alto. Fora da minha janela, é uma rua cheia de carros. Gosto muito de andar pelas Hu Tong na cidade, para respirar o ar, para sentir a quieta, para rever a vida e me acalmar.
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Voltei a Beijing em julho e dezembro, e visitei de novo uma das áreas conservadas de Hu Tong, onde, pela lei, são protegidas contra demolição. Quando a gente foi lá em julho, havia uma residência antiga, localizando em frente dum lago, à venda. Meu marido ficou tão emocionado, mandou me perguntar o preço. Falei: "A gente não vai conseguir pagar isso." Ele falou: "Só pergunte, não faz mal." Perguntei: a residência é de uma área de 1.100 metros quadrados, e custa 14,5 milhões de RMB, que é 1,75 milhões de dólares. Falei para aquele vendedor: "Mas não é possível! As casas estão caindo e devem ser reconstruídas." Respondeu: "O que a gente está vendendo é o terreno." Adorei o pátio. Tem os ávores e os verdes típicos que uma residência de Beijing deve ter. É pena, mas o cara tem razão. Mesmo numa área normal, no centro da cidade, um metro quadrado de apartamento custa mais de 10 mil RMB, que é cerca de 1,2 mil dólares.
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